Talvez já não vivamos na era digital
- Ricardo Lauricella
- 26 de jul.
- 2 min de leitura

Certa vez, ao dizer que “no meu tempo era diferente”, uma pessoa de 80 anos me disse que era um absurdo eu dizer isso. Que meu tempo é agora. Aquilo me atingiu com um misto de denúncia de ageísmo com uma dose de terapia.
Ontem, pensando sobre a psicologia profunda de Carl Jung e todas as demais correntes da psicologia, me peguei imaginando se essas teorias estariam ultrapassadas e tivessem que ser substituídas por supostas metodologias “deste tempo” como a terapia do trauma, de aceitação e compromisso e como isso se encaixa nos tempos digitais e hiperconectados.
Fato é que a era digital deixou de ser novidade. Ele é uma realidade e um ambiente onde pensamos, trabalhamos, amamos, brigamos, consumimos e criamos identidade. Não tem como dizer que a tecnologia é mais só ferramenta quando não desgrudamos de nossos smartphones nem para tomar banho ou dormir. É uma condição permanente da experiência da humanidade de hoje.
Pensamos por meio de telas, lembramos com ajuda de buscadores e redes sociais, construímos relações em aplicativos e recorremos à inteligência artificial para organizar ideias.
Essa mudança não carece mais ser julgada, mas entendida. Não sei se existem novas personas ou novos arquétipos. Mas sei que nunca estamos sós. Nossa atenção é disputada continuamente. O tédio, que antes podia abrir espaço para a imaginação, passou a ser preenchido em segundos por redes sociais, seriados, noticiário e joguinhos eletrônicos.
Sinceramente, o espírito do nosso tempo não me parece ser a tecnologia. E essa não é a ideia que responderia à nossa principal pergunta contemporânea. A resposta eu ainda não sei, mas a pergunta é: o que está acontecendo com a nossa psique enquanto quase toda experiência que vivemos passa por sistemas desenhados para capturar nossa atenção?
Ricardo Lauricella, Analista Junguiano que lê Stefano Carpani e Glen Slater para entender a psicologia profundas em nosso tempo.




Comentários