A vida que você construiu ainda cabe em você?
Há momentos em que a vida continua funcionando, mas alguma coisa começa a mudar na maneira como a experimentamos. O trabalho está lá, as relações continuam, as responsabilidades são cumpridas, os planos seguem uma certa direção. Não há necessariamente uma ruptura, uma perda ou um acontecimento que possa ser apontado como a causa de tudo. Ainda assim, surge uma sensação difícil de explicar: a vida que você construiu continua ali, mas aquilo que antes parecia fazer sentido já não produz exatamente o mesmo efeito.
Acredito que essa seja uma das formas mais silenciosas de transição.
Nem sempre acontece quando tudo desmorona, mas quando começamos a perceber que uma vida que construímos com tanto esforço já não conversa inteiramente com quem estamos nos tornando.
A pessoa que aprendemos a ser
Ao longo da vida, não construímos apenas uma trajetória. Construímos também uma maneira de existir dentro dela. Aprendemos como trabalhar, como nos relacionar, como cuidar, como tomar decisões, como suportar determinadas situações e como responder às expectativas daqueles que estão à nossa volta.
Algumas dessas formas de agir começam como respostas necessárias a circunstâncias específicas e, com o tempo, passam a fazer parte daquilo que entendemos como nossa própria identidade.
Aprendemos a ser quem precisou ser para dar conta da vida, naquele momento.
Isso pode ser uma força. Talvez tenha sido justamente essa capacidade de adaptação que permitiu atravessar determinadas fases, conquistar alguma autonomia, sustentar uma família, construir uma carreira ou sobreviver a experiências que exigiram mais do que imaginávamos poder oferecer.
O problema aparece quando aquilo que foi uma resposta a uma necessidade começa a ser confundido com aquilo que somos.
É possível passar muitos anos sendo reconhecido pela própria capacidade de suportar, produzir, resolver, cuidar ou controlar e, em algum momento, perceber que essas características continuam funcionando para o mundo, mas já não correspondem inteiramente à experiência interna. A vida segue reconhecendo aquela pessoa que fomos capazes de construir, enquanto nós começamos, ainda que discretamente, a perceber que alguma coisa mudou.
Por isso que certas crises de identidade sejam tão difíceis de compreender. Não estamos necessariamente insatisfeitos com tudo o que construímos. Podemos, inclusive, reconhecer valor e orgulho naquilo que fizemos. A questão pode ser outra:
será que ainda precisamos ser exatamente a mesma pessoa para continuar vivendo essa vida?
Quando aquilo que fez sentido deixa de fazer
Existe uma tendência a olhar para as mudanças importantes como se elas precisassem ser justificadas por algum erro anterior. Se uma profissão deixou de fazer sentido, pode ser que tenhamos escolhido errado. Se uma relação mudou, talvez não fosse verdadeira. Se uma ambição perdeu força, quem sabe nunca tenha sido realmente nossa.
Mas a experiência humana parece ser mais complexa do que isso.
Uma escolha costuma ser profundamente coerente com quem éramos quando a fizemos e deixar de ser coerente alguns anos depois. Isso não transforma o passado em equívoco. Apenas reconhece que nós também participamos da passagem do tempo.
Uma profissão pode ter oferecido exatamente o que precisávamos em determinada fase e, mais tarde, começar a parecer estreita. Uma relação pode continuar sendo importante e, ainda assim, exigir uma nova forma de existir. Uma ambição pode ter sido responsável por uma transformação enorme na nossa vida e, depois de cumprida, não produzir mais o mesmo desejo de antes.
Até aquilo que um dia fez nossos olhos brilharem pode deixar de fazer.
Existe algo de desconcertante nisso porque costumamos imaginar que encontrar aquilo que faz sentido deveria nos permitir permanecer ali. Como se o sentido fosse uma espécie de destino definitivo. Algumas vezes mais próximo de um movimento. O que nos orienta em uma etapa da vida pode não ser aquilo que nos orientará na próxima.
Por isso, perceber uma mudança interna não precisa significar rejeitar a história que construímos. Então sim, uma maneira de reconhecê-la com mais honestidade.
Quando a crise ainda não tem nome
Também existe uma diferença entre estar em crise e reconhecer que alguma coisa mudou.
Às vezes, usamos a palavra crise apenas quando o sofrimento já se tornou evidente. Quando o trabalho se torna insustentável, uma relação termina, o corpo começa a cobrar uma conta ou alguma circunstância externa nos obriga a interromper o modo como estávamos vivendo. Mas há momentos anteriores a isso.
A sensação de estar funcionando bem e, ao mesmo tempo, não se sentir inteiramente presente na própria vida. A dificuldade de explicar por que determinada conquista já não produz a satisfação esperada. A vontade de mudar alguma coisa sem conseguir dizer exatamente o quê. Uma inquietação que aparece justamente quando, olhando de fora, não parece haver motivo suficiente para ela existir. Nesse espaço algumas transições comecem.
Na Psicologia Analítica, a relação com a própria vida não se resume ao que conseguimos organizar conscientemente. Há movimentos internos que podem permanecer pouco claros durante algum tempo, até que encontrem uma forma de serem reconhecidos. Não é de imediato que sabemos o que uma inquietação quer dizer.
Em diversos momentos precisamos permanecer próximos dela antes de transformá-la em decisão.
Isso é particularmente difícil em uma cultura acostumada a transformar rapidamente desconforto em solução. Sentimos alguma coisa, procuramos uma explicação. Encontramos uma explicação, procuramos uma estratégia. Encontramos uma estratégia, queremos uma mudança.
Mas algumas experiências não pedem uma resposta imediata. Exigem elaboração.
Olhar para a própria história de outro lugar

Isso faz o ato de revisitar a própria história tão diferente em momentos diferentes da vida. Os acontecimentos permanecem, mas a pessoa que olha para eles mudou.
Uma experiência que durante muitos anos foi compreendida como fracasso pode adquirir outro significado. Uma escolha que parecia inevitável pode revelar os desejos e necessidades que estavam por trás dela. Uma relação pode ser lembrada não apenas pelo que terminou, mas também pelo que tornou possível viver depois.
O fato não mudou. O lugar que ele ocupa dentro de nós, sim.
Essa possibilidade de olhar novamente para a própria história é particularmente importante quando falamos de identidade. Porque identidade não é apenas a resposta para a pergunta “quem eu sou?”, como se existisse uma definição estável esperando para ser encontrada. Ela também envolve a relação que estabelecemos com aquilo que fomos, com aquilo que estamos deixando de ser e com aquilo que ainda não sabemos se poderemos nos tornar.
A transição, nesse sentido, não precisa (e nem deve) ser compreendida apenas como uma passagem entre dois pontos. Há um período em que ainda estamos muito ligados àquilo que fomos, enquanto alguma coisa nova começa a aparecer sem ter forma suficiente para receber um nome.
É um lugar pouco confortável. Amadurecer não é.
O que ainda pode nos mover?
Quando vemos que alguma coisa mudou, é comum querer descobrir imediatamente qual deveria ser o próximo passo. Como se reconhecer que uma direção perdeu força exigisse encontrar outra no mesmo instante.
Nem sempre acontece assim. Pode existir um intervalo entre aquilo que já não nos move e aquilo que ainda não sabemos se pode nos mover. Nesse intervalo, pode ser possível observar com um pouco mais de cuidado o que começa a despertar interesse, desejo, curiosidade ou mesmo incômodo.
Não necessariamente para tomar uma decisão. Às vezes, apenas para perceber.
Uma transição não necessariamente é o momento em que finalmente descobrimos quem deveríamos ser. Talvez seja o momento em que começamos a perceber que algumas das respostas que funcionaram durante muito tempo já não precisam continuar respondendo por nós.
Isso não diminui a pessoa que fomos. Ela continua sendo parte da nossa história.
A vida que você construiu ainda cabe em você?
Não porque alguma coisa necessariamente tenha dado errado. Mas porque você também tenha mudado.
E porque, inúmeras vezes, ainda podemos encontrar outras coisas que nos movam.
Nos Eixos é um espaço para pensar aquilo que nos atravessa: crises, modernidade, transições, relações, identidade, trabalho, masculinidade, escolhas, desejo e sentido.
Um olhar a partir da Psicologia Analítica, da experiência de mais de duas décadas em gestão e, sobretudo, da escuta.
Ricardo Lauricella, Analista Junguiano que adorava brincar de lego para construir coisas e depois destruir para começar outras.




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