Pergunta à Jung sobre a hiperconectividade
- Ricardo Lauricella
- há 4 dias
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Diante da luz azul do monitor com a lombar travada e dezesseis abas abertas no navegador, percebo a violência silenciosa da hiperconectividade que divide a minha identidade em frações utilitárias. Segue o incômodo sobre os conceitos fundamentais de Jung terem envelhecido diante da hiperconectividade. Mas algo me diz que a mudança está acontecendo no ambiente onde eles se manifestam.
Hoje, a Persona continua como adaptação do ego ao mundo. A diferença é que agora ela pode assumir dezenas de versões simultâneas entre redes sociais, no ambiente de trabalho e aplicativos onde nos cadastramos.
E a Sombra? Ela continua sendo projetada, com a diferença que encontra plataformas que amplificam conflitos e recompensam polarizações dentro de nossa própria bolha, impulsionada pelo algoritmo, é claro.
Entre uma pinçada na coluna e outra, me parece que o Self enfrenta um novo desafio... nunca houve tantos sistemas tentando antecipar desejos, sugerir escolhas e organizar experiências antes mesmo delas se tornarem conscientes. Um aplicativo que ouve nossas conversas antes mesmo de acionarmos ele, a câmera que verifica o lugar da tela para onde olhamos, o sensor que identifica a velocidade do nosso “scrolling” e quanto tempo passamos com o dedo segurando ou deslizando de um lado para o outro.
Um novo grito de “aí”, ao tentar me levantar, serve de âncora para lembrar que a individuação também parece mais difícil quando silêncio, sonho e o recolhimento são soterrados por notificações sem-fim desenhadas para bloquear qualquer tentativa de introspecção.

Jung descreveu o inconsciente coletivo como um campo simbólico compartilhado. Bonito, mas o que eu sinto é que convivemos com outro campo, formado também por bilhões de interações registradas, organizadas e devolvidas por algoritmos.
Ok, não precisa ser um novo inconsciente. Mas que é uma nova camada do ambiente simbólico em que a psique precisa aprender a existir, isso é.
Ricardo Lauricella, Analista Junguiano que também é inundando pelos novos tempos e sente dores nas costas.




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