Sintoma, remédio e a pressa de não sentir: por que revisitar a origem da dor?
Todos os dias em que sentimos alguma coisa buscamos um remédio para aquilo. Ou seja, mal suportamos a queixa e já queremos exterminá-la. Claro que ninguém gosta de dor, mas, para ela parar de doer ou não voltar, é preciso entender por que surgiu. Aí mora o detalhe: temos pressa. E pressa não combina com obstáculo.

Essa reflexão começou diante de uma instalação da exposição A alma humana, você e o universo de Jung, no MIS Experience. Uma vending machine que não vendia remédios, vendia sintomas. Achei a ideia genial. Em poucos segundos a instalação conseguiu transformar uma cena comum em uma pergunta difícil:
por que esperamos que todo sofrimento tenha uma solução imediata?
Quando o sintoma vira o inimigo
Acima da máquina havia uma frase de Tom Zé: "Ao persistirem os médicos, os sintomas deverão ser consultados".
A combinação era quase inevitável. Por alguns instantes, imaginei nossos médicos como gênios da lâmpada, ou melhor, da pílula mágica.
— Tenho um incômodo.
— Pronto. Aqui está sua prescrição.
A imagem é provocativa justamente porque revela uma expectativa que muitos de nós carregamos. Esperamos que o médico elimine o sintoma. E, quando isso não acontece, dificilmente saímos satisfeitos.
A maioria de nossos médicos se aproxima mais de traficantes de drogas do que de médicos. Não que eles queiram. Eles podem passar a consulta inteira falando sobre alimentação, sono, atividade física, estresse e mudanças de hábitos relacionadas ao nosso problema. Se sairmos sem uma receita, todo o restante costuma virar um simples "isso eu já sabia". O que queremos, no fundo, é que a dor pare.
O sintoma também comunica
A observação não é sobre tomar remédios.
Tenho crises de enxaqueca. Procuro um médico, tomo a medicação e sigo a vida.
Ninguém precisa ser masoquista e conviver com dor o tempo inteiro. A questão começa depois.
Quando a dor passa, fazemos alguma pergunta sobre ela?
Estou consumindo cafeína em excesso? Dormindo menos do que deveria? O trabalho tem ocupado um espaço maior do que consegue sustentar? As discussões em casa estão encontrando um caminho para se expressar pelo corpo?
Não estou sugerindo que todo sintoma tenha origem emocional, nem que medicamentos sejam desnecessários. Seria um equívoco. O que me chama a atenção é outra coisa. Muitas vezes tratamos o sintoma como se ele fosse apenas um erro de funcionamento, quando talvez ele também esteja comunicando alguma coisa sobre a maneira como estamos vivendo.
A dor precisa desaparecer. A experiência não.
Foi aí que a instalação ganhou outra dimensão para mim.
Quando os médicos já não dão conta de resolver tudo, talvez seja porque estamos tentando transformá-los em apagadores de experiências. Esperamos que eliminem rapidamente aquilo que, em alguns momentos, também merece ser compreendido.
Isso vale para uma dor de cabeça, mas também para tantas outras formas de sofrimento. O tratamento continua sendo importante. O alívio também. Mas talvez exista uma diferença entre eliminar um sintoma e escutar o que ele veio anunciar.
Antes que você diga, eu falo por você:
— Eu sei. Mas temos pressa.
Ricardo Lauricella, Analista Junguiano que escreve enquanto dói e se pergunta, porque dói?




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